Publicado por: Carlos Scomazzon | Sexta-Feira, Julho 11, 2008

Exposição homenageia Vinicius de Moraes

Em 1968 o poeta e diplomata Vinicius de Moraes lançou o livro O Mergulhador, que trazia sua poesia ilustrada com fotografias de seu filho Pedro de Moraes. A inspiração em um de seus poemas, Pátria Minha, resultou na exposição de fotografias que Pedro de Moraes realizará, em homenagem a seu pai, na Caixa Cultural, (Praça da Sé, 111), em São Paulo, a partir desta sexta-feira, dia 11 de julho. A entrada é franca. Com curadoria de Érica Rocha, a exposição apresenta uma seleção de 32 fotografias da produção de 50 anos de trabalho intenso do fotógrafo (de 1958 a 2007), em locais como Bahia, Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Maranhão, Fortaleza, Rondônia e Mato Grosso do Sul.

“Pedro de Moraes, com essa exposição, faz uma homenagem a todos os trabalhadores brasileiros. E é também uma exposição voltada aos jovens, pois mostra neste mundo digital a importância da preservação da fotografia analógica”, ressalta a curadora. Ela explica que Robert Capa, o autor da frase “Se as tuas imagens não são suficientemente boas, é porque não estás suficientemente perto”, influenciou Pedro de Moraes a manter uma proximidade dos personagens, mostrando uma relação emocional com os assuntos e tendo um comprometimento ideológico no momento de fotografar.

Pedro de Moraes nasceu no Rio de Janeiro em 1942. Autodidata, aos 12 anos iniciou sua carreira freqüentando o estúdio fotográfico dos irmãos José e Humberto Franceschi. Como fotógrafo freelancer trabalhou para publicidade, arquitetura, foto industrial, moda, jornalismo e cinema. Sua fotografia foi muito influenciada por fotógrafos como Henri-Cartier Bresson, Robert Capa, Man Ray, Robert Doisneau, Richard Avedon entre outros do período e pós período da Segunda Guerra Mundial. Foi militante fotográfico durante a ditadura. Em seu acervo fotográfico constam cerca de 15.000 negativos.

A exposição Pátria Minha ficará em cartaz de 11 de julho a 10 de agosto, de terça a domingo, das 9h às 21h. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (11) 3321-4400 ou no site da Caixa Cultural.

Pátria Minha
Vinicius de Moraes

A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos…
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu…

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda…
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha… A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
“Liberta que serás também”
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão…
Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
“Pátria minha, saudades de quem te ama…
Vinicius de Moraes.”

Texto extraído do livro O Mergulhador, de Vinícius de Moraes e Pedro de Moraes, Editora Argumento – 2ª edição, Rio de Janeiro, 2002.


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