Na data em que comemora os seus 60 anos, nesta terça-feira, dia 15 de julho, a partir das 20 horas, o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP) inaugura Marcel Duchamp: uma obra que não é uma obra ‘de arte‘. Segundo os organizadores, trata-se da maior exposição individual do artista franco-americano já realizada na América do Sul, em parceria com a Fundação Proa, de Buenos Aires. A curadoria é de Elena Filipovic, co-curadora da Bienal de Berlim e especializada na obra do artista. Complementando a mostra, a Sala Paulo Figueiredo recebe Duchamp-me, com obras de artistas brasileiros inspirados no franco-americano e curadoria de Felipe Chaimovich. Em novembro, a exposição segue para Buenos Aires.
Até 21 de setembro em São Paulo, a mostra de Marcel Duchamp celebra o aniversário de 60 anos do MAM-SP com propriedade: teria sido dele a curadoria da primeira exposição do museu se tivesse sido posto em prática o projeto enviado de próprio punho a Ciccillo Matarazzo, por carta, em 1948. Tal documento será exibido na exposição Duchamp-me. Quarenta anos depois da morte de Duchamp, em 2 de outubro de 1968, a mostra propõe uma reflexão sobre a revolução artística promovida por um dos mais controvertidos artistas de seu tempo, precursor de diversos movimentos e procedimentos que viriam a ser assimilados ao longo de todo o século 20 pelas artes visuais.
Contestador, Marcel Duchamp usou sua obra para negar a idéia de que a industrialização e a tecnologia seriam responsáveis por uma transformação que levaria a humanidade à evolução e ao desenvolvimento, uma visão quase profética. Entre as cerca de 120 peças em exibição, figuram marcos cruciais de sua carreira, incluindo O grande vidro, nome pelo qual é conhecida La mariée mise a nu par ses célibataires, même, obra inédita no Brasil.
Nascido em 28 de julho de 1887 na região da Alta Normandia, na França, Marcel Duchamp rompeu com a arte até então realizada com o objetivo de resgatar a autonomia e o valor do artista plástico, refutando a idéia de trabalho artístico que visasse meramente o prazer estético e o deleite visual. Toda sua criação seguiu em busca da resposta à sua pergunta (e que inspirou o título da exposição): “Pode alguém fazer uma obra que não seja uma obra ‘de arte’?”. Por ela compreende-se sua recusa ao conceito de arte de então, cujos critérios a serem seguidos eram predominantemente cor e forma, em detrimento de tema, intenção ou idéia por parte do artista, desconsiderando o pensamento inserido na obra.
Flertando com o cubismo e o futurismo para renegá-los, antecipando os dadaístas e inspirando os surrealistas, com os quais nunca se associou totalmente, legando princípios que resultariam na arte conceitual, na arte pop, no minimalismo, na arte cinética, no Fluxus, nas instalações, Duchamp foi um artista de trajetória ímpar, isolada de regras e cânones dos movimentos estéticos de seu tempo em sua empreitada para resgatar a inteligência, a vivacidade e o humor na arte e na vida, seguindo acima de tudo a vontade e o prazer da realização artística contra a mecanização do cotidiano e dos costumes.
