Qual é o papel dos canais educativos no Brasil? Para quem, afinal, é produzida a tevê educativa? Que público é esse? Que necessidades ele tem? Como a tevê pode cumprir seu papel de poderoso instrumento na constituição de identidades sociais e culturais? No dia 9 de setembro, Cristiane Mafacioli Carvalho, professora do curso de comunicação da Universidade de Cruz Alta, no Rio Grande do Sul, apresentou suas reflexões sobre o tema no Intercom/2005, que aconteceu no Rio de Janeiro. Defendida no ano passado, na Unisinos, sua tese de doutorado Tevê: incursões sobre o discurso pedagógico foi uma das finalistas do Prêmio Intercom deste ano.
— O estudo busca estudar a produção discursiva de emissoras voltadas à educação, com vistas a identificar que características, estratégias, configurações e mecanismos expressivos são empregados na construção dos produtos desse tipo de tevê. Propõe-se a examinar como a produção televisiva educativa estrategicamente articula e atualiza a tensão entre as diferentes lógicas que interferem nas suas condições de produção.
Para desenvolver a pesquisa, Cristiane optou por investigar a televisão educativa cuja produção se pauta por um projeto educacional com proposta pedagógica definida, verificando se suas produções são compatíveis aos propósitos por ela determinados.
— Nesse sentido, as emissoras selecionadas foram o Canal Futura e a TV Escola. A investigação foi desenvolvida considerando a seguinte premissa: a dificuldade encontrada pelas tevês educativas para a produção de seus produtos se deve às negociações que têm de ser feitas entre a lógica pedagógica e as demais lógicas que presidem a produção televisiva, responsável pela inadequação ao meio na seleção de formatos, linguagens e estratégias discursivas a serem empregadas”, explica. O primeiro passo foi buscar compreender o percurso da tevê educativa no Brasil, desde as primeiras experiências.
Em entrevista concedida ao jornalista Marcus Tavares, do Rio Mídia, a professora destacou os principais pontos de sua pesquisa e analisou o quadro atual das TVs educativas brasileiras. O Rio Mídia é um Centro Internacional de Referência em Mídias para Crianças e Adolescentes, vinculado à Diretoria de Mídia e Educação da Multirio – Empresa Municipal de Multimeios da Prefeitura do Rio de Janeiro. Abaixo, a íntegra da entrevista:
Rio Mídia – A senhora afirma em seu texto que a história das tevês educativas brasileiras mostra que estes canais nunca tiveram uma programação definida, adequada aos reais objetivos propostos por uma emissora desse caráter. Neste sentido, na sua avaliação, quais seriam os reais objetivos de uma emissora educativa? Poderíamos dizer que estes objetivos são universais, ou seja, independentemente do país, do povo e da cultura, uma TV educativa deve e pode-se pautar pelos mesmos objetivos?
Cristiane Mafacioli Carvalho – Antes de tudo, acredito que seja pertinente esclarecer que o termo “tevê educativa”, nos meus estudos, não se refere exclusivamente ao contexto de emissoras públicas/estatais. Num sentido mais amplo, trato da tevê educativa como aquela mídia televisiva responsável pela produção de programas fundados em projetos voltados às ações educativas. Nesse contexto, entendo que os reais objetivos de uma emissora educativa sejam o de caracterizar-se pela oferta de informações necessárias à formação de determinados saberes do indivíduo, direcionados à construção e acumulação de conhecimentos. Essa formação, como bem sabemos, possibilita ao indivíduo uma certa autonomia que permite uma inserção social mais efetiva, criativa e, portanto, produtiva. Se estes objetivos são universais? Em princípio, sim. Acredito que qualquer país, povo ou cultura compreenda os princípios da educação de modo semelhante e, conseqüentemente, a tevê – com função educativa – passa por esses conceitos e concepções. No entanto, como sabemos, em alguns países (especialmente os em desenvolvimento), a deficiência no campo da educação aumenta muito a expectativa em torno desses objetivos e, principalmente de seus resultados.
Rio Mídia – Neste contexto, podemos afirmar que a TV educativa brasileira encontra-se perdida, sem identidade, sem objetivos claros?
Cristiane Mafacioli Carvalho – Os objetivos me parecem muito claros. Existem critérios normativos adotados desde 1999 pela Abepec (Associação Brasileira de Emissoras Públicas, Educativas e Culturais) em que as tevês educativas comprometem-se, entre outras coisas: (1) a trabalhar para o bem da sociedade, educando, informando e entretendo; (2) a buscar a inclusão social, a defesa de pluralidade e das minorias, a formação da identidade cultural; (3) a promover o respeito à inteligência, à sensibilidade e ao espírito crítico; (4) a repudiar estímulos ao consumo e a formas de violência. Acredito que esses preceitos apontam para a grande diferença entre canais comerciais e educativos: no primeiro, como o principal objetivo é vender audiência, reduz-se o papel do telespectador a um mero consumidor; no segundo, como o telespectador é considerado como cidadão, perseguem-se outros valores. O que parece estar acontecendo é um desajuste entre objetivos da emissora e a produção dos programas, o que, teoricamente, uma vez ajustados, criaria a identidade dessas emissoras como canais interessados em promover o conhecimento e o saber, a partir da qualidade de produção e, portanto, do consumo prazeroso desses programas por parte do receptor. E isso não é tão simples de se resolver. Existe toda uma formação de um campo, o da tevê educativa, que se constituiu ao longo dos anos no Brasil. E aí se inserem as leis e os desejos políticos de uma época muito distante, mas que engessou por muito tempo as práticas da tevê educativa, resultando no modelo que temos hoje. Acredito que essa história da tevê educativa é que impossibilitou o estabelecimento de uma identidade própria.
Rio Mídia – De acordo com seu trabalho, a produção das emissoras educativas ainda não conseguiu descolar-se do modelo erudito da cultura formal e também não conseguiu democratizar a informação para atingir um público que continua muito carente quanto à educação e à cultura. Por que isto acontece?
Cristiane Mafacioli Carvalho – Parece que a questão está diretamente associada aos níveis de saber. Em um país como o Brasil, em que os níveis são diversos e distantes, fica difícil eleger os temas a serem discutidos na grade de programação e os modos como eles devem ser tratados. É certo que o público de formação cultural privilegiada, em que a cultura do tipo erudita e formal é parte de seu modo de vida, deseja outro tipo de tevê além daquela que banaliza a informação e desqualifica o próprio bom senso do telespectador. Para esse público, programas de excelente conteúdo e alto grau de exigência de uma capacidade crítica e analítica, como os encontrados nas tevês educativas, são muito bem-vindos. Mas, numa relação de pertinência, quando se trata de um tipo de tevê que é exibida no Brasil, em que a maioria da população carece de formação cultural e educativa, deveria se privilegiar, também, esse tipo de público, tratando a cultura de um modo mais próximo do telespectador, permitindo que a informação seja efetivamente aproveitada. A grande questão é, para quem, afinal, é produzida a tevê educativa brasileira? Que público é esse? Que necessidades ele tem? Como a tevê pode cumprir seu papel de poderoso instrumento na construção de identidades sociais e culturais? Talvez o caminho ideal para adequar o meio ao seu propósito seja refletir, com honestidade, sobre quem pode ser esse telespectador que a tevê quer educar. Não é simples, porque se trata de televisão, um meio de massa, que atinge a todos do mesmo modo, não interessando o seu grau de saber ou conhecimento. Mas a discussão, que é antiga, continua sendo necessária.
Rio Mídia – A maioria dos cidadãos vincula os programas educativos às linguagens e narrativas chatas, tediosas e sem graça. A senhora afirma que o grande desafio de um programa educativo é ser tão atrativo quanto um programa que vise apenas ao entretenimento e vise a informar tanto quanto a aula de um bom professor. Podemos dizer que este é, portanto, o grande nó das emissoras educativas?
Cristiane Mafacioli Carvalho – Com certeza. Isso se deve, possivelmente, às dificuldades que produtores sempre encontraram de reunir, num mesmo produto, informação, educação, cultura e entretenimento. Existe, como bem apontam os estudiosos do texto televisivo, de modo geral, uma inadequação de linguagens e formatos. Curiosamente, quando aparecem, no mercado televisivo voltado à educação, produtos que superam essas dificuldades e alcançam sucesso, eles parecem ser frutos de tantas tentativas que é como se desconhecesse o percurso encontrado para a fórmula exitosa e se houvesse chegado a ela ao acaso. Mais uma vez a questão histórica, que também é econômica, parece estar diretamente ligada a esse contexto, que é necessariamente da instância da produção.
Rio Mídia – Todas estas questões que a senhora coloca para as TVs educativas podem ser explicadas pelo fato de que quem estabelece os parâmetros de produção para elas são as tevês comerciais, e não ao contrário, como seria o ideal? Por que isto acontece?
Cristiane Mafacioli Carvalho – Acontece porque o sistema de televisão brasileiro foi criado a partir do modelo comercial, uma vez que, somente 20 anos depois da criação da tevê no país, as tevês educativas começaram a ser pensadas. De fato, os estados brasileiros começaram a criar televisões educativas financiadas pelo Estado, por alguma fundação, ou universidade estadual. E funcionavam como autarquias, sempre subordinadas a um órgão do governo. Esse modelo de televisão estava engessado pela lei de 1967, época da ditadura, que dizia que as televisões educativas só podiam produzir aulas-conferências e não podiam receber doações. O que acontece? Os 20 anos de domínio da tevê comercial no mercado acabaram por formatar um modelo totalmente dependente de fontes de economia que não são propriamente públicas, o que acaba por gerar produtos, na maioria das vezes, com excelente nível de produção, mas nem sempre com a qualidade com que os conteúdos deveriam ser tratados, já que estão vinculados a interesses de patrocinadores e não de cidadãos. Assim, o modelo que temos no Brasil é pautado pelo mercado da tevê comercial, que dita o grau de qualidade, o qual inevitavelmente passa pelo investimento em tecnologias de produção mais desenvolvidas. A busca por essa qualidade implica a necessidade de recursos financeiros em alto grau, fato que dificulta o caso das educativas, que, em grande maioria, são de emissoras de caráter público e com recursos reduzidos.
Rio Mídia – A senhora vê alguma saída para as TVs educativas? Há alguma experiência interessante?
Cristiane Mafacioli Carvalho – Sim, existe uma saída. A bem da verdade, as tevês que desenvolvem projetos voltados à educação já evoluíram muito em termos de produção e qualidade. Diversos programas interessantes já foram produzidos (Castelo RáTimBum será sempre um bom exemplo dessa mudança) e os produtos televisivos de teor educativo começam a experimentar a sensação de serem desejados, assistidos, aproveitados em seu conteúdo e expressão (e aqui poderiam ser citados diversos exemplos da programação do Futura, como o Alô Vídeo Escola, o Nota 10, entre outros tantos). Mas ainda estamos no começo. É claro que não podemos esperar que as experiências educativas ganhem maior dimensão que os projetos comerciais, afinal, vivemos num mundo em que o processo capitalista de fato domina e ganha os maiores espaços. Mas podemos sonhar, desejar e, claro, trabalhar para que essa mudança aconteça…
Rio Mídia – O que deve pautar o trabalho de uma TV Educativa?
Cristiane Mafacioli Carvalho – Qualquer trabalho em tevê, principalmente o educativo, deve ser desenvolvido levando em conta que a tevê não é o espaço para o aprofundamento de temas. Sempre que tentarmos usar em um programa de tevê mais tempo que o nosso telespectador pode investir, estaremos desperdiçando o potencial do meio. Além disso, a tevê é, em essência, o espaço da diversão, do entretenimento. Como, então, associar isso à educação, uma vez que parecem se tratar de questões opostas? Ora, um produto televisivo com função pedagógica pode perfeitamente pretender esses dois objetivos: interessar e divertir. Afinal, para o telespectador, televisão está associada a entretenimento, sem o que ele não permanece frente ao vídeo. Daí o desafio: não abdicar das finalidades pedagógicas e, ao mesmo tempo, ter condições de apresentar informações importantes, com linguagem atraente e propostas instigantes; despertar a curiosidade e o prazer em aprender.



