Publicado por: Carlos Scomazzon | Quarta-feira, Dezembro 31, 2008

Pesquisa: crianças avaliam os noticiários

O que as crianças dizem sobre o jornalismo e como elas constroem suas identidades a partir do que ouvem, lêem ou vêem? Foi este o questionamento que orientou a jornalista Claudia Garzel a elaborar o seu trabalho de conclusão de curso de Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Realizada em 2004, a pesquisa ouviu crianças, de 10 e 11 anos, da 4ª série do Ensino Fundamental do Colégio de Aplicação de Florianópolis.

Claudia quis descobrir como as crianças acessavam às notícias, de que forma e por quais meios. O levantamento também procurou saber quais eram os temas que mais interessavam a faixa etária.

— A televisão, a internet e a revista mostraram ser os meios de comunicação preferidos. Mas a pesquisa revelou que é por meio da televisão e da conversa com os parentes que as crianças tomam conhecimento das notícias –, revela Claudia.

Matérias sobre cultura, lazer, esportes e meio ambiente são as que mais chamam a atenção. Segundo o estudo, as crianças também gostam de reportagens que falam sobre ‘coisas de criança’ e ‘coisas sobre criança’.

— Elas dizem ainda que os produtos jornalísticos voltados para o público infantil deveriam levar em consideração o ponto de vista das próprias crianças e abrir espaço para o trabalho de jornalistas mirins. Elas gostariam de ver um jornal mais leve e animado. Isso quer dizer: um jornal que abordasse acontecimentos importantes, ajudando-as a compreender o significado das coisas.

Segundo Claudia, as crianças consomem notícias todos os dias, mesmo que indiretamente. Mas em geral são notícias feitas por adultos para o público adulto. Na sua avaliação, o jornalismo pode ter um papel fundamental na preparação das crianças para lidarem com as modificações que estão ocorrendo no mundo atual. Para tanto, os jornalistas devem ter coragem para ousar e experimentar novas formas de veicular a informação.

— Formas que se mostrem mais atraentes e façam mais sentido para o público infantil. O equilíbrio entre o interesse por entretenimento e a veiculação de fatos relevantes para a sociedade só poderá ser encontrado na prática, e dificilmente se realizará sem o auxílio das crianças. A tomada de consciência por parte dos jornalistas e dos produtores de mídia é crucial para os rumos que o jornalismo poderá tomar na nova paisagem que começa a se configurar –, opina.

Leia a seguir a entrevista que a jornalista Claudia Garzel concedeu ao site do Rio Mídia. O Rio Mídia é um Centro Internacional de Referência em Mídias para Crianças e Adolescentes, vinculado à Diretoria de Mídia e Educação da Multirio – Empresa Municipal de Multimeios da Prefeitura do Rio de Janeiro.

Rio Mídia – Podemos dizer que as crianças se interessam pelo jornalismo muito mais do que se acredita?

Claudia Garzel – Em primeiro lugar, acho importante ressaltar que os resultados da minha pesquisa se restringem ao universo estudado: crianças da 4ª série do Colégio de Aplicação, de Florianópolis, Santa Catarina. É preciso ter cuidado para não se generalizar as conclusões. Com isto em mente, podemos dizer que a pesquisa mostrou que a maioria das crianças entrevistadas diz se interessar por notícias e reportagens e que o grau deste interesse está vinculado ao tipo de reportagem e ao assunto abordado. Não é possível, no entanto, afirmar que as crianças se interessam por notícias mais do que se imagina. Isso porque não se têm dados sobre o quanto às pessoas acreditam que as crianças se interessem por notícias para comparar. As crianças entrevistadas afirmaram que é por meio da televisão (70%) e da conversa com parentes (10%) que mais ficam sabendo das noticias.

Rio Mídia – Portanto a audiência das crianças (frente aos programas jornalísticos) sofre uma forte influência dos pais, dos adultos?

Claudia Garzel – Sim. As crianças que participaram da pesquisa afirmaram que muitas vezes ficam sabendo das noticias através de conversas com parentes e amigos. Também observamos por meio dos dados que as crianças muitas vezes acabam assistindo ao noticiário na televisão porque os adultos da casa assistem – em geral durante as refeições, quando a família se reúne na mesa. Então a criança acaba assistindo ou pelo menos escutando as reportagens, mesmo que indiretamente. Esses momentos em família parecem ser potencialmente propícios para a troca de opiniões e conversas sobre atualidades.

Rio Mídia – O que as crianças mais gostam de ler/ver/ouvir nos noticiários?

Claudia Garzel – As crianças demonstraram uma preferência pelos temas cultura e lazer, esportes e meio ambiente. Além disso, gostam também de notícias sobre “coisas de criança” (desenhos animados, brinquedos, videogame, etc.) e “coisas sobre criança”. Na avaliação delas, os produtos jornalísticos voltados para as crianças deveriam levar em consideração o ponto de vista do público infantil e abrir espaço para o trabalho de jornalistas mirins. Elas gostariam ainda de assistir a um jornal “mais leve” e “mais animado”. Isso quer dizer: um jornal que abordasse acontecimentos importantes e que, ao mesmo tempo, despertasse interesse e ajudasse a garotada a descobrir o significado das coisas.

Rio Mídia – Toda esta ‘escuta’ apreendida pelas crianças, por meio dos noticiários, chega às escolas? São trabalhadas de alguma forma pelos professores?

Claudia Garzel – No Colégio de Aplicação, de Florianópolis (SC), as professores da 4ª série mostraram-se bastante preocupadas em relacionar as matérias que as crianças estão estudando com o que esta acontecendo no mundo atual. Algumas delas pedem inclusive que os alunos assistam ao noticiário ou leiam o jornal para depois discutirem o assunto em sala de aula. Infelizmente não foi possível entrevistar também os pais, para descobrir sobre o que a recepção dessas informações por parte das crianças gera em casa. Mas as crianças contaram que muitas vezes conversam com amigos e parentes sobre as notícias que assistiram.

Rio Mídia – Você acredita que os produtores de mídia dirigida às crianças (na área do jornalismo) sabem alcançar seu público-alvo, sabem se fazer ouvir?

Claudia Garzel – A minha pesquisa não oferece dados suficientes para afirmar nem que sim nem que não. Mas posso dar a minha impressão pessoal: não. O que eu chamo de “jornalismo para crianças” ainda é algo indefinido, sem forma concreta. São poucos os produtos de mídia para crianças no mercado que têm realmente uma preocupação em passar informações atuais. Em geral são informações sobre curiosidade, histórias de ficção ou novidades sobre brinquedos. E mesmo quando tentam abordar um tema atual, muitas vezes os jornalistas e editores se esquecem de tentar focar o assunto através do ponto de vista das crianças, e poucas vezes procuram abrir espaço para a participação delas. Todas as crianças que eu entrevistei me disseram isso também. Então como os produtores de mídia para crianças podem fazer jornalismo voltado para esse publico e se fazer ouvir? Acho que só conversando com as crianças, dando espaço para a voz delas. Não adianta dizer que o problema é que as crianças não se interessam por notícias. Elas estão consumindo notícias todos os dias, mesmo que indiretamente. Mas em geral são notícias feitas por adultos para o publico adulto. Então por que não procurar dar forma a essa coisa abstrata que eu chamo de “jornalismo para crianças” com a ajuda das próprias crianças?


Deixe uma resposta

Sua resposta:

Categorias