Publicado por: Carlos Scomazzon | quinta-feira, junho 18, 2009

Autora conta dramas da esquizofrenia em livro

capa livro“Coroai-me de rosas, coroai-me em verdade de rosas. Poesia e esferográfica. Pode algum filho de Deus ser alijado da poesia que está em todos os lugares, em todas as expressões faciais, naquela pequena folha trazida pelo vento, dentro das palavras e gestos cotidianamente ditos por todos? Esquizofrenia. Esse é o cara.”

As primeiras palavras do livro Coroai-me de rosas, de Rosemara Mont’Alverne, já dão pistas ao leitor: ele está prestes a embarcar na cabeça e no coração de uma pessoa diagnosticada com esquizofrenia há dez anos. A obra, publicação da Editora Aletria, será lançada no dia 20 de junho, das 11 às 13h30min, no Café com Letras (Rua Antônio de Albuquerque, n° 781, Savassi), em Belo Horizonte. Quem não mora na capital mineira pode adquirir o livro solicitando por e-mail à Editora Aletria. Como se fosse um diário, Rosemara revela momentos da sua vida em que se sentiu estigmatizada, e precisou se portar de forma “normal” para mostrar ao mundo que está tudo bem. Ainda bem que ela descobriu que as palavras podem ser grandes amigas e confidentes. Talvez seja esse o motivo da surpreendente lucidez da escritora.

Ao refletir sobre as palavras, ela se conforta quando descobre, por exemplo, o significado da estranha palimpsesto: “pergaminho que teve a primeira tinta raspada e possui outra no lugar.” Para a autora, o termo “remete às chances que a vida dá para as pessoas, pode-se escrever outra história no mesmo papel.”

Dizem que o esquizofrênico perde a capacidade de sentir afeto, se emocionar. Mas essa máxima é colocada em cheque quando Mara relembra de um rapaz que conheceu antes do desencadeamento da doença. César, um office boy por quem tinha especial carinho e sobre quem soube, recentemente, do trágico destino. Rosemara também emociona o leitor quando registra a situação em que ouviu as palavras de um jardineiro: “até as criações de Deus nascem diferentes.”

Assina o prefácio o psiquiatra e escritor Ronaldo Simões Coelho. A apresentação da obra é do escritor Bartolomeu Campos de Queiroz. O título faz referência ao poema do português Fernando Pessoa, assinado por seu heterônimo Ricardo Reis. Ele tinha liberdade poética de ser vários.

“Ao questionar a razão, afirmando sempre ser propriedade do outro, e uma sociedade por não democratizá-la, Rosemara o faz valendo-se de uma escrita sensível, capaz de envolver o leitor cuidadosamente. Ela reconhece que as palavras nos fundam como humanos e o mundo é do tamanho do que cada um sabe dizê-lo. Ao ler Rosemara descobrimos que não há uma escrita masculina e outra feminina, uma infantil e outra adulta, mas existe uma escrita literária capaz de acolher a nossa diferença, e que nos leva a uma reflexão sobre o falso riacho manso que rola dentro de nós.” (Bartolomeu Campos de Queirós-Escritor)

“Quero ressaltar que o livro da Mara tem, a meu ver, dois méritos principais. O primeiro é o de permitir que o chamado doente mental, o diagnosticado como esquizofrênico, se faça ouvir. O segundo é possibilitar, aos que lerem, a oportunidade de meditar sobre um assunto tão doloroso, do qual todos participamos como se se tratasse de um mundo que não fizesse parte do nosso próprio mundo.” (Ronaldo Simões Coelho – escritor e psiquiatra)

A autora se apresenta 

“Nasci em Belo Horizonte, em maio de 1968. Sou graduada em Direito pela UFMG e formada em Letras pela mesma Universidade. Este é o meu primeiro livro de uma trilogia. Tenho um diagnóstico de esquizofrenia há 9 anos. Tudo começou com uma depressão profunda, não me preocupava com comida nem com dinheiro. Saí do trabalho sem ter outra fonte de renda. E, principalmente, afastei-me das pessoas que me queriam bem. Nove anos depois, resolvo escrever sobre alguns acontecimentos, fragmentos que aconteceram na minha vida neste período de pré e pós-esquizofrenia. A maioria dos míni contos tem como cenário a cidade em que nasci e me criei. Ter nascido em 1968 me enche de orgulho, pois foi um ano libertário e duro ao mesmo tempo em todo o mundo. Nasci sob o signo da mudança profunda. É isso que este singelo livro significa para mim. Espero que gostem. Muito obrigada.”

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