Publicado por: Carlos Scomazzon | segunda-feira, março 8, 2010

Exposição destaca cores das camisas de times de futebol

O Centro Cultural Banco do Nordeste-Fortaleza abre nesta terça-feira, dia 9, às 19 horas, a exposição individual Zona de Fronteira, do artista visual paraibano Julio Leite, natural de Campina Grande (PB), com curadoria de Katia Canton [PhD em Artes Interdisciplinares pela Universidade de Nova Iorque e livre-docente em teoria e crítica de arte pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP)]. Gratuita ao público, a mostra fica em cartaz até o próximo dia 9 de abril no CCBNB-Fortaleza (horários de visitação: terça-feira a sábado, de 10h às 20h; e domingos, de 10h às 18h). A exposição reúne a mais recente produção do artista Julio Leite. Para produzir o trabalho, ele fez observações, junto ao entorno do espaço urbano, de pessoas que torcem por times de futebol da segunda divisão de vários estados brasileiros.

O artista fez questão de escolher personagens que torcem por clubes da segunda divisão, para enfatizar as cores de suas respectivas padronagens, em detrimento do determinismo das paixões pelos clubes de massa. As imagens coletadas, por meio da fotografia, serão exibidas em flashes de grandes formatos por meio de dois data-shows. A outra obra que Julio Leite traz para o CCBNB-Fortaleza é ainda mais instigante. Trata-se de uma instalação, medindo 900 x 300 cm, composta por 450 fotos dos detalhes coletados pelo artista das estampas (listras, letras, costuras, números, patrocínios), enaltecendo a saturação do espaço expositivo e as formas contidas e representadas por estas camisas. De acordo com o artista, o resultado é um grande painel que nos remete a uma trama colorida presente na tapeçaria ou nas colchas de retalhos. “Minha intenção primeira é uma ação urbana cujos elementos se constituem em personagens munidos de cores, de nuances”, destaca.

Por meio de um registro de uma performance, via fotografia, Julio Leite associa imagens cujos personagens apelam para um território cromático em constante deslocamento. A ocupacão ocorre de maneira elaborada para espaços previamente pensados. O registro, seja dos personagens inseridos na performance, seja dos detalhes improvisados das cores das camisas, se transformam em uma grande instalação com mais de 450 fotos em pequenos formatos, impondo a saturação do espaco expositivo. Em outra sala, o artista elabora num data-show a exibição de fotos em grandes formatos, desta vez, impondo ao lugar o território reivindicatório da cor no espaço urbano.

A curadora Katia Canton afirma que no trabalho de Julio Leite as camisas de times de futebol – portadas pelos corpos, registradas nas fotografias, mostradas em seriação ou projetadas nas paredes – tornam-se flashes, instantes, onde se alternam o anonimato do corpo comum com a singularidade do corpo que porta uma certa cor, um certo emblema ou número. Essa questão conceitual aparece inicialmente no trabalho emblemático do artista norte-americano Jasper Johns. Johns, então um jovem artista, concluiu em 1955 uma obra que gerou grande polêmica. Intitulada Flag (Bandeira) [ou Stars and Stripes (Estrelas e Listras) em outras versões], ela simplesmente apresentava as listras e estrelas da bandeira norte-americana, em uma grande dimensão, utilizando pintura e encáustica (técnica de pintura na qual se misturam cores com cera aquecida e derretida).

A simples apresentação da bandeira, sem qualquer comentário que se ligue a seu conteúdo, produziu incômodo e atração, dependendo do tipo de espectador que se deparava com ela, demonstrando que uma imagem contém inevitavelmente índices culturais e está necessariamente mergulhada em suas conotações sociopolíticas e ideológicas. Johns abriu o caminho para as latas de sopa, caixas de sabão em pó e imagens de celebridades na obra de Andy Warhol, e inexoravelmente atestou o poder das imagens midiáticas de gerar narrativas próprias.

É interessante pensar que no projeto contemporâneo de Julio Leite, as duas leituras se tornem possíveis. Por um lado, as camisetas de futebol, mesmo sem o reconhecimento imediato dos times e pelo simples fato de conterem números, cores, marcas e emblemas organizados formalmente, tornam-se “porta-sinais”, à medida que as remetem à condição de uniformes esportivos. Por outro lado, repetidas exaustivamente com a ajuda da máquina fotográfica, elas se tornam superfícies cromáticas, livrando-se momentaneamente de sua carga simbólica. É nesse momento que se tornam apenas “porta-cores”. Essa simultaneidade parece assinalar a coexistência de aspectos formais e simbólicos, entremeados e misturados na condição da obra de arte contemporânea.

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