Publicado por: Carlos Scomazzon | segunda-feira, abril 26, 2010

Projeto que beneficia alunos com deficiência auditiva busca apoio

Professora Lena Rayol

Não há reconhecimento do Poder Público ao trabalho desenvolvido com os portadores de deficiência auditiva. A constatação é da professora Lena Rayol, autora do projeto Fala que Eu Entendo. Natural de Belém do Pará, a professora Lena, ou Odilena Rayol Gaspar, de 47 anos, atualmente é diretora executiva da Fundação Educar, instituição responsável pelo projeto, que tem o objetivo de qualificar tanto os alunos com deficiência auditiva quanto os seus professores. Lena reside na cidade goiana de Pontalina, onde está a sede da Fundação Educar, que coordena vários projetos sociais e é responsável por todas as atividades pedagógicas da Faculdade de Educação Teológica (Facete) em Goiás.  

A Fundação Educar utiliza os alunos da Facete para execução dos projetos sociais e, ao mesmo tempo, certifica-os como voluntários para obtenção de carga horária extra curricular exigida pelo MEC. Lena também é pedagoga, teóloga, especialista em gestão e responsabilidade social, e exerce a docência em Filosofia da Religião. Atualmente, ela representa a Facete em Goiás, atuando como coordenadora pedagógica em todo o estado. “Onde houver um núcleo da Facete, ele está sob minha responsabilidade.”  

Desde de 2006, a professora Lena trabalha especialmente com os portadores de deficiência auditiva. “Comecei no Estado do Pará. Hoje melhorei o projeto e estou trabalhando aqui em Goiás. Pontalina é uma cidade que precisa urgentemente da execução desse projeto, pois, de acordo com as nossas pesquisas, há um número muito elevado de deficentes auditivos.”, explica Lena. “Em média, seis entre cada dez famílias têm um ou mais portadores desta deficiência. É um número altíssimo e lamentável, pois existem crianças que não ingressam nas escolas por não terem acompanhamento adequado. A cidade tem uma carência enorme de profissionais especializados nas escolas.”, acrescenta.  

Voluntários da Casa da Esperança

O trabalho realizado, no entanto, não conta com nenhuma parceria. A Fundação conseguiu apenas o apoio da prefeitura local para cedência de um espaço para as aulas serem ministradas. Sobre a receptividade e reconhecimento entre a população do trabalho desenvolvido com os portadores de deficiência auditiva, Lena observa: ” É até engraçado isso, é um paradoxo. Todos acham nosso trabalho lindo, todos amam a iniciativa, percebem a necessidade dele. Mas é um problema só nosso. É muito difícil encontrar parceiros que contribuam para o desenvolvimento do projeto”.  

A professora destaca que o projeto enfrenta muitas dificuldades para desenvolver o trabalho com os deficientes auditivos. Segundo ela, a falta de voluntários e de apoio financeiro encabeçam a lista de carências, seguida da falta de recursos didáticos e de material didático visual. “Nosso material é todo confeccionado pela Fundação Educar, que vive de doações. Também não temos espaço adequado para a realização do trabalho. Mas todo começo é difícil. Se fosse fácil, todos fariam.”  

Além disso, diz Lena Rayol, para que o trabalho possa ser desenvolvido de forma adequada, o grupo precisa muito de um kit multimídia, com telão, data-show, um DVD player, uma TV com tela grande e a impressão do material produzido. “Eu, como autora do projeto, tenho viajado muito em busca de parcerias e de apoios dos políticos, mas ainda não conseguimos nada. Nossa perspectiva, no entanto, é a de que vamos obter êxito, porque precisa dar certo”, diz otimista, quando questionada sobre as dificuldades.  

A Fundação Educar, explica Lena, tem outros projetos que caminham em parceria com a Facete, que vão desde a elaboração, a execução e a promoção de projetos viáveis e necessários, como o trabalho desenvolvido com as crianças da Casa da Esperança. Ele inclui pesagem, distribuição de sopas aos sábados numa comunidade muito carente da cidade e revezamento de alguns profissionais para doarem um pouco do seu tempo como músicos, professores de dança e teatro, mestres de capoeira e ministrantes de alguns cursos promovidos com o objetivo de ensinar as mães a desenvolverem algum tipo de atividade que ajude a aumentar a renda familiar.

Preconceito

Segundo o Censo do IBGE 2000, no Brasil existem 24,5 milhões de pessoas com deficiência, sendo que a deficiência auditiva acomete cerca de 5,8 milhões de brasileiros, desde a surdez total até níveis diferentes de audição. De acordo com o IBGE, 30% da comunidade de surdos é analfabeta. Já os dados do Censo Escolar/2005 registraram a matrícula de 66.261 alunos surdos ou com deficiência auditiva na Educação Básica, enquanto o Censo da Educação Superior/2004 identificou apenas 974 alunos com deficiência auditiva matriculados em cursos de nível superior. Ainda segundo dados do IBGE, em 2003 somente 344 alunos surdos estavam matriculados nas universidades brasileiras.  

Lena Rayol conta que ainda há muito preconceito contra o portador de deficiência auditiva, assim como os problemas e as barreiras que ele enfrenta na sociedade. “São tantos (os problemas) que até parece absurdo que, em pleno século XXI, no qual se fala tanto em inclusão, ainda haja tanta exclusão e tanto descaso”, lamenta a professora.  

Alunos da Facete

Entre as principais barreiras enfrentadas pelos alunos portadores de deficiência auditiva, ela cita: a rejeição da própria família (em muitos casos); a dificuldade em comunicar-se com a sociedade e/ou a família; a rejeição dos coleguinhas, pois muitas vezes servem de motivo para zombarias; o rótulo de “incapazes”; e as dificuldade no acesso à escola. Sobre a reinserção do portador de deficiência na vida social, Lena entende que o primeiro passo é o dele aprender a se aceitar como ele é. “O primordial é que ele aprenda a se comunicar e ganhe consciência de que é capaz de fazer e aprender tudo o que quiser.”  

O trabalho desenvolvido pela Fundação Educar com o projeto Fala que eu Entendo valoriza também a participação dos familiares desses portadores de deficiência. Primeiramente, são realizadas visitas às casas de famílias que possuem crianças portadores de deficiência auditiva. “Mas vamos sempre com o objetivo de esclarecer sobre os seus direitos e sobre a sua condição na sociedade. Procuramos mostrar que eles têm uma deficiência e não uma doença contagiosa e que são tão capazes quanto os ditos normais. Precisam apenas conhecer seus limites, como todo ser humano.”, explica a professora.  

Depois, na primeira fase, a família é levada ao projeto para aprender mais sobre os deficientes auditivos e a se comunicar de forma mais eficiente com eles, conhecendo melhor as suas necessidades. Na segunda fase, os familiares recebem informações sobre a história dos deficientes em geral e as leis que regulam o setor. A terceira etapa diz respeito ao aprendizado da Língua Brasileira de Sinais (Libras), enquanto a quarta prevê estégio e conversação. “Depois eles podem ser voluntários, agimos como formadores de agentes multiplicadores”, explica Lena.  

Escolas  

A partir da convivência e do trabalho desenvolvido com os portadores de deficiência auditiva, Lena Rayol formou convicção de que as crianças com essa deficiência não precisam de escola diferente das demais crianças. Para Lena, o importante é que essas crianças recebam o acompanhamento de professores qualificados, “porque é perfeitamente possível a convivência entre eles e os ditos normais”.  

Lena observa que o preconceito contra os portadores de deficiência também está presente nas escolas. “Infelizmente o preconceito existe, e muitas de nossas crianças deficientes sentem-se excluídas dentro de casa e têm medo de ir à escola e serem também (ou mais) rejeitadas.” Outras crianças não têm acesso em razão das dificuldades que encontram dentro da própria escola: professores sem qualificação, falta de apoio técnico (professores, coordenadores, supervisores) sem nenhum preparo para lidar com a diferença. “A escola tem que ter a consciência de que somos diferentes e que ela serve como ponto convergente onde todas as divergências se encontram. Ela tem que ser acolhedora não só com os deficientes, mas também com eles.”  

Lena acredita que o maior problema nas pequenas cidades não seja necessariamente a falta de vaga nas escolas para as crianças com deficiência auditiva, mas a falta de profissionais qualificados para as atenderem. “Em contrapartida, nas grandes cidades a oferta de cursos é maior; logo, há uma maior concentração de especialistas na área da educação especial nas metrópoles.”  

A dirigente da Fundação Educar também salienta que a qualificação dos professores para atender esses alunos portadores de deficiência “não deve ser mera titulação e, sim, uma escolha por amor ao próximo e por acreditar nele, ou seja, porque se importa e/ou se identifica com a causa”. A professora avalia que, atualmente, já existe bem menos preconceito por parte dos professores em relação aos portadores de deficiência. “Já houve muito preconceito entre os profissionais da educação. Hoje ainda se escolhem cursos por modismo, mas só quem ama a causa realmente continua. A bandeira da inclusão está na moda, e pelo menos isso serve para que quase todos, hoje, dispensem um melhor tratamento aos portadores de deficiência.”

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Responses

  1. Parabens pela iniciativa, eu também sou def. auditiva e gostaria de contribuir com o projeto.

  2. […] This post was mentioned on Twitter by Blog Comunic@nte. Blog Comunic@nte said: Projeto que beneficia alunos com deficiência auditiva busca apoio. http://wp.me/pezFO-2Gy […]


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